Em abril fomos “surpreendidos” com uma das maiores tragédias socioambiental no Brasil, o Rio Grande do Sul foi literalmente inundado pelas chuvas torrenciais que caíram sobre ele. Os rios encheram, não tiveram vazão, dezenas de pessoas perderam suas vidas, milhares ficaram desabrigadas e perderam tudo. Em que pese delegar a responsabilidade à natureza, ela não é culpada, há neste cenário, a ação humana. Centenas de vidas perdidas, humanos, flora e fauna varridas do mapa.

O desmatamento desenfreado para acolher a demanda do agronegócio ou dos grandes empreendimentos urbanos, são alguns fatores que corroboraram para a tragédia. Corta-se árvores para criar pastos ou monopólio de monoculturas, como a soja, por exemplo. Há também, o descaso do poder público ao não trabalhar políticas de prevenção contra as enchentes; foi o que ficou evidenciado com o baixo orçamento disponibilizado pelo governador do Estado à contenção das águas. Era uma tragédia anunciada.
Nos últimos dias o Brasil foi invadido por queimadas, diversos estados e dezenas de cidades foram tomados por fumaça. Tem dia que o céu está cinza, mas não é prenúncio de chuvas. Aliás, é chuva ácida como tem acontecido em São Paulo. Os alagamentos e as queimadas nestes cenários têm vindo através da intervenção humana, como evidenciado por diversas reportagens. Os incêndios são oriundos de ações orquestradas e criminosas, algumas com caráter político.
Quem paga por essas atividades orquestradas? A população e, sobretudo, as pessoas que não estão implicadas com essas violências. É só observarmos o alto índice de internações por problemas respiratórios e as mortes advindas por complicações oriundas delas.

E você pode estar se perguntando como o livro Água Turva da escritora gaúcha Morgana Kretzmann e o artista visual Frans Krajcberg entram nesse diálogo? Já explico!
Vamos primeiro a obra de Kretmann: Água Turva é um thriller de tirar o fôlego e traz em seu bojo, histórias que flertam entre a ficção e a realidade. Ambientado em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, quase fronteiriça com a Argentina, tem como pano de fundo o Parque Estadual do Turvo, último reduto da Onça-pintada e não só: abriga também uma fauna e um flora riquíssima e o salto Yucumã, considerado uma das maiores quedas longitudinais do mundo.
O livro narra uma disputa e um interesse de forças econômicas para transformar a reserva em uma hidrelétrica, o que levaria ao desaparecimento do lugar. O Parque, segue sob os olhos atentos de Chaya, uma guarda florestal, que para além da preservação daquele espaço, encerra segredos familiares, sobretudo, uma relação ancestral – esta última, seu talismã.
O Parque, é também uma personagem, em dado momento, através de um ancestral que nele vive, congrega com as personagens centrais, Preta, Chaya e Olga: Preta, uma mulher que vive à margem, metafórica e literalmente, ilustro: “metaforicamente”, porque ela lidera um bando de pessoas excluídas da sociedade e utiliza-se de meios não convencionais para sobreviver; “literalmente”, porque ela mora à margem de um rio. Dona de uma personalidade vigorosa, é uma mulher destemida e não tem medo de lutar pelo que acredita e faz quase tudo por sua sobrevivência e de seu grupo social. Chaya, uma servidora pública comprometida com a rés pública, de uma ética inquestionável, carrega um amor incomensurável ao Parque, ao seu avô e à sua comunidade, e é por eles que ela luta. Olga, ao sair de sua cidade natal para estudar, deseja não mais retornar em razão de um acontecimento em sua vida na adolescência. Torna-se jornalista e assessora parlamentar e é nessa segunda profissão que tem acesso às manobras ilícitas do deputado em que presta assessoria, cujo principal objetivo é colocar debaixo d’água, o Parque do Turvo. Olga, procura uma redenção e lutar pela preservação do Parque é uma forma de pedir perdão ao seu núcleo de pertencimento.
As três mulheres, apesar das divergências e singularidades que possuem, unem-se para lutar contra o poder econômico e pela manutenção do Parque. Morgana Kratzmann, nos insere em um Brasil que não queríamos, mas que insiste em ser, contudo, mostra-nos que enquanto houver vida, há esperança. A autora é formada em Gestão Ambiental e utiliza da literatura como ferramenta de luta em prol do Meio Ambiente.
A pergunta que deve estar ecoando é: e Frans Krajcberg, como entra nesta história?
O multi-artista, nascido na Polônia, migrou para o Brasil em 1948, após perder sua família durante a segunda guerra mundial, ela foi vítima do nazismo, tendo sido morta no campo de concentração. No Brasil, o artista dedicou sua vida à defesa da natureza, lutou sobretudo contra as queimadas, utilizando a arte para fazer denúncia, ele é conhecido sobretudo por utilizar raízes e troncos calcinados como matéria prima de suas obras.
Enquanto viveu, o artista lutou contra o desmatamento das florestas, trabalhando o tema da ecologia quando ainda não era tão difundido na sociedade e nas artes plásticas, ele é o que chamamos hoje de artevista, um verdadeiro militante em prol da natureza.

Krajcberg foi um grande ecologista, um arteecologista; e Kretzmann, utiliza da literatura para denunciar a violência contra a natureza, eis aqui, o ponto de contato entre eles, pois utilizam do campo das artes, um das visuais e plásticas, a outra, da literatura, da palavra. É dentro deste lugar que infiro que as artes têm o poder de sensibilizar as pessoas e neste caso, educar para as relações com o Meio Ambiente/nossa casa. Krajcberg, ao olhar para uma árvore calcinada disse:
“O que faço é denunciar a violência contra a vida. Esta casca de árvore queimada sou eu.”
Que possamos, assim como o artista, lutar contra essas violências, temos apenas este planeta como lar. Termino este texto com a oração de Preta e de Kretzmann.
“Arrê”. Preta fecha os olhos e continua:
“Cabloco, Arrê.”
Com pano, começa a lavar seus cortes.
“Protege o Turvo
Chão altar de tudo.”
Lava o corpo. Lava a fraqueza que sente.
“Homem-fé
Na mata
Cura terra
Cura água
Cura Sarampião.”
[Água Turva, p.224]
“Láròyé Mo jubá
Odò Íyá
Òóré Yèyè ó
Òké Aro
Ógún Yè.”
[Água Turva, p.262]
Sara Araújo (Salvador, Bahia) tem 46 anos, é bacharel em Direito, licenciada em Ciências Sociais, pós-graduanda em História da África e da Diáspora Atlântica, Analista Jurídica da Defensoria Pública do Estado do Paraná. É palestrante, sommelière de cervejas, ganhadora do Prêmio Zumbi dos Palmares (2017) pela Câmara de Vereadores de Bauru (SP), integrante da Comissão Étnico Racial Lélia Gonzáles da Associação dos servidores/as da Defensoria Pública do Estado do Paraná, colaboradora do NUDEM – Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres, do GT de Racialidae da Defensoria Pública do Paraná, do GT de Diversidade da ABRACERVA e integrante do coletivo Expressão Poética desde 1999. Coautora das seguintes obras: Poetas Virtuais (2000) Poêmico – Poesia em tempos pandêmicos (2021) Mãe Pretas – Maternidade Solo e Dororidade (2021) Expressinho Poético (2022) e Quando o Racismo bate à porta (2023). É colunista da Revista Philos e você pode encontrar-la nos perfis @araujojsara e @literaturanobar no instagram!