Em abril fomos “surpreendidos” com uma das maiores tragédias socioambiental no Brasil, o Rio Grande do Sul foi literalmente inundado pelas chuvas torrenciais que caíram sobre ele. Os rios encheram, não tiveram vazão, dezenas de pessoas perderam suas vidas, milhares ficaram desabrigadas e perderam tudo. Em que pese delegar a responsabilidade à natureza, ela não é culpada, há neste cenário, a ação humana. Centenas de vidas perdidas, humanos, flora e fauna varridas do mapa.

Registro de Lalo de Almeida com cinzas de uma árvore que foi totalmente consumida pelo fogo em pasto queimado na fazenda São Francisco, Zona rural de Santo Antônio de Leverger (MT), 2024.

O desmatamento desenfreado para acolher a demanda do agronegócio ou dos grandes empreendimentos urbanos, são alguns fatores que corroboraram para a tragédia. Corta-se árvores para criar pastos ou monopólio de monoculturas, como a soja, por exemplo. Há também, o descaso do poder público ao não trabalhar políticas de prevenção contra as enchentes; foi o que ficou evidenciado com o baixo orçamento disponibilizado pelo governador do Estado à contenção das águas. Era uma tragédia anunciada.

Nos últimos dias o Brasil foi invadido por queimadas, diversos estados e dezenas de cidades foram tomados por fumaça. Tem dia que o céu está cinza, mas não é prenúncio de chuvas. Aliás, é chuva ácida como tem acontecido em São Paulo. Os alagamentos e as queimadas nestes cenários têm vindo através da intervenção humana, como evidenciado por diversas reportagens. Os incêndios são oriundos de ações orquestradas e criminosas, algumas com caráter político.

Quem paga por essas atividades orquestradas? A população e, sobretudo, as pessoas que não estão implicadas com essas violências. É só observarmos o alto índice de internações por problemas respiratórios e as mortes advindas por complicações oriundas delas.

Morgana Kretzmann

E você pode estar se perguntando como o livro Água Turva da escritora gaúcha Morgana Kretzmann e o artista visual Frans Krajcberg entram nesse diálogo? Já explico!

Vamos primeiro a obra de Kretmann: Água Turva é um thriller de tirar o fôlego e traz em seu bojo, histórias que flertam entre a ficção e a realidade. Ambientado em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, quase fronteiriça com a Argentina, tem como pano de fundo o Parque Estadual do Turvo, último reduto da Onça-pintada e não só: abriga também uma fauna e um flora riquíssima e o salto Yucumã, considerado uma das maiores quedas longitudinais do mundo.

O livro narra uma disputa e um interesse de forças econômicas para transformar a reserva em uma hidrelétrica, o que levaria ao desaparecimento do lugar. O Parque, segue sob os olhos atentos de Chaya, uma guarda florestal, que para além da preservação daquele espaço, encerra segredos familiares, sobretudo, uma relação ancestral – esta última, seu talismã.

O Parque, é também uma personagem, em dado momento, através de um ancestral que nele vive, congrega com as personagens centrais, Preta, Chaya e Olga: Preta, uma mulher que vive à margem, metafórica e literalmente, ilustro: “metaforicamente”, porque ela lidera um bando de pessoas excluídas da sociedade e utiliza-se de meios não convencionais para sobreviver; “literalmente”, porque ela mora à margem de um rio. Dona de uma personalidade vigorosa, é uma mulher destemida e não tem medo de lutar pelo que acredita e faz quase tudo por sua sobrevivência e de seu grupo social. Chaya, uma servidora pública comprometida com a rés pública, de uma ética inquestionável, carrega um amor incomensurável ao Parque, ao seu avô e à sua comunidade, e é por eles que ela luta. Olga, ao sair de sua cidade natal para estudar, deseja não mais retornar em razão de um acontecimento em sua vida na adolescência. Torna-se jornalista e assessora parlamentar e é nessa segunda profissão que tem acesso às manobras ilícitas do deputado em que presta assessoria, cujo principal objetivo é colocar debaixo d’água, o Parque do Turvo. Olga, procura uma redenção e lutar pela preservação do Parque é uma forma de pedir perdão ao seu núcleo de pertencimento.

As três mulheres, apesar das divergências e singularidades que possuem, unem-se para lutar contra o poder econômico e pela manutenção do Parque. Morgana Kratzmann, nos insere em um Brasil que não queríamos, mas que insiste em ser, contudo, mostra-nos que enquanto houver vida, há esperança. A autora é formada em Gestão Ambiental e utiliza da literatura como ferramenta de luta em prol do Meio Ambiente.

A pergunta que deve estar ecoando é: e Frans Krajcberg, como entra nesta história?

O multi-artista, nascido na Polônia, migrou para o Brasil em 1948, após perder sua família durante a segunda guerra mundial, ela foi vítima do nazismo, tendo sido morta no campo de concentração. No Brasil, o artista dedicou sua vida à defesa da natureza, lutou sobretudo contra as queimadas, utilizando a arte para fazer denúncia, ele é conhecido sobretudo por utilizar raízes e troncos calcinados como matéria prima de suas obras.

Enquanto viveu, o artista lutou contra o desmatamento das florestas, trabalhando o tema da ecologia quando ainda não era tão difundido na sociedade e nas artes plásticas, ele é o que chamamos hoje de artevista, um verdadeiro militante em prol da natureza.

Frans Krajcberg pelas lentes de Luiz Garrido.

Krajcberg foi um grande ecologista, um arteecologista; e Kretzmann, utiliza da literatura para denunciar a violência contra a natureza, eis aqui, o ponto de contato entre eles, pois utilizam do campo das artes, um das visuais e plásticas, a outra, da literatura, da palavra. É dentro deste lugar que infiro que as artes têm o poder de sensibilizar as pessoas e neste caso, educar para as relações com o Meio Ambiente/nossa casa. Krajcberg, ao olhar para uma árvore calcinada disse:

“O que faço é denunciar a violência contra a vida. Esta casca de árvore queimada sou eu.”

Que possamos, assim como o artista, lutar contra essas violências, temos apenas este planeta como lar. Termino este texto com a oração de Preta e de Kretzmann.

“Arrê”. Preta fecha os olhos e continua:
“Cabloco, Arrê.”
Com pano, começa a lavar seus cortes.
“Protege o Turvo
Chão altar de tudo.”
Lava o corpo. Lava a fraqueza que sente.
“Homem-fé
Na mata
Cura terra
Cura água
Cura Sarampião.”

[Água Turva, p.224]

“Láròyé Mo jubá
Odò Íyá
Òóré Yèyè ó
Òké Aro
Ógún Yè.”

[Água Turva, p.262]


Sara Araújo (Salvador, Bahia) tem 46 anos, é bacharel em Direito, licenciada em Ciências Sociais, pós-graduanda em História da África e da Diáspora Atlântica, Analista Jurídica da Defensoria Pública do Estado do Paraná. É palestrante, sommelière de cervejas, ganhadora  do Prêmio Zumbi dos Palmares (2017) pela Câmara de Vereadores de Bauru (SP), integrante da Comissão Étnico Racial Lélia Gonzáles da Associação dos servidores/as da Defensoria Pública do Estado do Paraná, colaboradora do NUDEM – Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres, do GT de Racialidae da Defensoria Pública do Paraná, do GT de Diversidade da ABRACERVA e integrante do coletivo Expressão Poética desde 1999. Coautora das seguintes obras: Poetas Virtuais (2000) Poêmico – Poesia em tempos pandêmicos (2021) Mãe Pretas – Maternidade Solo e Dororidade (2021) Expressinho Poético (2022) e Quando o Racismo bate à porta (2023). É colunista da Revista Philos e você pode encontrar-la nos perfis @araujojsara e @literaturanobar no instagram!

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